Não há cinismo que resista ao cinema. Por mais alto que seja o nível do feminismo/nista, decresce antes da metade de "A Noviça Rebelde" seguido por "Dirty Dancing" num domingo qualquer.... baixo nível? "Johnny & June", baseado numa história real...junto com essa expressão, os letreiros finais caminham ao lado de quem deixa a sala de cinema. Na sétima arte reside um pouco do ópio do romantismo.
O tal, aquele que você cresceu ouvindo falar para depois descobrir não existir, parece tão esgotado quanto o próprio clichê. O tempo traz uma espécie de proteção à programação romântica, aquela que tantas vezes os livros, as novelas e até os testes de revistas insistem em te oferecer. Não existe nada. Nem amor, nem dor, nem você mesmo. Cinismo adquirido, padrões rompidos, coração gelado. É gelo que nasce para ser derretido. E rapidamente recongelado quando em vez de sólido se mostra líquido ou se evapora no ar.
"Cinismo é a ingenuidade da idade adulta", falou Bruno escorado no balcão. O mesmo Bruno que escreveu:
Uma queda de seis horas. Seis horas acelerando livre, sem ver o solo. Só dois pontos azuis, piscando na minha frente, e meu corpo ficando mole e pesado. É mort anunciada, nada petit. Uma queda de seis horas, com um pé chumbado no chão, o outro inquieto no piso quadriculado. E ela ali... bebendo devagar. Ela ria e ria e ria. E sua cara aumenta tanto quando ri. Ela ri toda, ela chacoalha quando ri. Ela tem um cabelo curto e infinito de tantas curvas lentas. E o cabelo também ri. Ela tem uma gargalhada em staccato, de todos os tons. A gargalhada ganha volume enquanto os copos secam. Meu ego duro e calejado de amor e sexo cínico depõe as armas. Agora não sou nada - e me sinto mais vivo. Ela fala e ouve tudo. Não falsifica nada, não inventa nada, não olha de lado. Ela olha de frente, olha reta e não procura ninguém nas outras mesas. É absolutamente linda. Linda por fora e em torno, nos cantos, nos vincos e nas dobras finíssimas dos anos e das rugas de alegria. Linda e não tem medo nem orgulho de ser a mulher mais linda que sabe rir com o corpo todo. Ela nunca tem medo quando ri. Então, ela pára de rir. Para chorar. Acabou. Eu não existo - estou vivo. O choro zuniu. Uma foice no intestino do canalha que caiu morto de mim e escorreu para fora do bar. Ela chora e não olha para o lado. Olha pra frente. Os pontos azuis minavam água para que eu afundasse depois da queda de seis horas. Fim. Estou morto. Só sirvo para vestir essa mulher... quero arrancar os ossos, minhas carnes e virar um casaco para ela. "
O mesmo Bruno que, junto com o cinema americano, é o ópio do romantismo...pouco falta para acreditar. De novo.
Escrito por Renata CS às 16h57
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Ecos de um carnaval musical
Carnaval, a lavação da carne (do italiano, carne levare; suspender, pôr de lado a carne, permitam a nildítica adaptação) começa na 5afeira. As prévias são ditas melhores e nada como o mundo trabalhar enquanto se pirilampa em clima de lero-lero-vem-prá-cá-que-também-quero. E quero música, muita, boa, na cabeça. Pode ser marchinha - de salão, de guitarra, de orquestra, de vitrola - para suspender a carne, a cabeça e a alma do chão.
5af - 23.fev: Franz Ferdinand@Circo Voador
"Oh well I woke up tonight and said I/I'm gonna make somebody love me/And now I know, now I know, now I know/I know that it's you/ You're lucky, lucky/ You're so lucky! "
a primeira estrofe de "Do you want to", música do segundo disco do FF, deve ter sido cantarolada pela banda poucos minutos antes de subir ao palco, sem saber que a platéia já tinha dado esse ponto antes. Oito da noite o Circo Voador já abrigava ansiosos espectadores. Banda queridinha da cena indie, que costuma arrumar uma nova banda queridinha a cada badalada do relógio, o FF aceitou cachê mais baixo que o de costume pois queria fazer aquele show. Em contrapartida, levaram equipamento de vídeo para terminar "um tal dvd" que faziam durante essa turnê. Surpresa para eles, a platéia estava em estado de graça e parecia ser formada por 2500 membros da comunidade deles no orkut. Do primeiro acorde até o fim do último bis não pararam palmas, gritos ou o "cantar junto". Num escocês ininteligível o vocalista dizia o quanto se sentia bem recebido. Engataram o melhor non-stop musical. A temperatura sube, o baixista vai ao mic comprovar sua empolgação: depois da semana de mega shows, nada melhor que ser abrigado naquele picadeiro e ver as gotículas de sangue vermelhando pingando de um suado dedo escocês. Ainda teve o (excelente) baterista num surto de empolgação baticundum acompanhado de mais dois a debulhar os bumbos. Suspeito que o tal dvd vai virar FF live in Rio, e que muito em breve o Circo Voador vai receber mais bandas bacanas nesse mesmo esquema noise.
6af - 24.fev: Deep Dish no Circo Voador + Moo Dia de música eletrônica, festa cheia. Do som do Deep Dish dá para dizer música eletrônica para as massas. Da massa vem o burburinho que o rapper P.Diddy (ex-Puff Daddy, ex- Sean Combs, ex-....) estava lá. Num rolê pelo Circo esbarramos nele, em seus bling-blings nas orelhas, dançando a vontade cercado pelo imaginário live do gangsta rap: segurança gordão, popozuda gringa ao lado, a couple of o mates com outras garotas. Ali, rebolento a três degraus, começava oficialmente o meu carnaval. Direto para Moo, festa bacana, edição em Botafogo, oferecia som bom com pista melhor. Já tardava e o povo queria se deitar. A varanda de São Conrado ouve o funk, vê a rocinha, o quanto ela cresceu, e depois que apaga o baile começa o samba na quadra "dinheiro não compra felicidade". Devem saber, têm a melhor.
sábado - 25.fev: Ipod is My God fim de tarde na praia, vem ni mim my Igod, traz "Work-Work-Work (pub, club, sleep)" com The Rakes para prometer a noite. Antes dela chegar o sol desce mais, Jamie Lidell vem susurrar " Well I´m sure it never used to be/ So hard/ This hard/ I used to get those kicks for free/ but now I´m towing the line/Oh....../This ain´t no way to be/ Stuck between my shadow and me/ Could it been the sun don´t shine/ Although I´ll tell you that I´m doing fine/ I´m so tired I over beating myself/Beating myself up/ Gonna take a trip and multiply/ Please go under with a smile..."
madrugada do dia 25 para o dia 26: Leandro de Itaquera na Avenida, quase cinco da manhã ...e mais uma pelada no carnaval de São Paulo aparece na tv; a repórter, nessa hora a rezar que la vem bucha, pergunta algo.... - queria mandar um beijo para a mamãe e para a ... - é, sou do interior de sp, primeira vez no carnaval "Boa sorte" emenda a reporter. Para você também.
domingo - 26.Fev: Bloco do Bangalafumenga e Empolga às Nove O bloco cap1: Vegetarianos perdidos no meio do J.Botânico enquanto Rodrigo Maranhão e Sérgio Loroza faziam a preza final, alguns monoblocos por ali, carnaval não tem separação. Apenas quatro pedaços em quartos de um coração, dividos entre amigas para começar a doce ilusão. Carnaval de perder preconceitos, de risos, copos, de fazer o não feito, rir do desfeito e da falta de jeito. De fazer xixi no canto, de chegar na praia para ver o Empolga às 9, às nove horas no Posto 9, mas que só começou às dez. E aí...bem, aí dizem que teve esconde-esconde, banho de chuva com samba, ataque de dislexia, seguranças para a enlouquecida rainha de mel; que teve dança, que depois de quinze minutos num banheiro químico sai reclamando que não consegui fazer xixi, que sentamos na praia, que nos perdemos, nos encontramos, subimos e descemos duas vezes no mesmo elevador e esquecemos de sair pela porta, de dar de cara na estante...é o que dizem...mas não lembro muito, e sabe como é, o que eu não lembro eu não fiz (se bem que não parece ter muita graça não lembrar)...
segunda - 27.fev: bloco do Leblon-aeroporto-Recife: Rec Beat com Riachão e Eddie De novo atrás do bloco, depois do táxi, e daí do avião. Chegada em Recife já quase terça-feira. Sorriso da amiga perdida. Riachão, old school samba roots da Bahia, 72 anos cantando "ela quer me ver bem mal/vá morar com o diabo que é imortal", pergunta para a banda qual é a próxima música a tocar, ataca pululante com outra. Na seqüência o original olida style de Eddie, e músicas para não parar de dançar até as quatro.
terça - 28.fev: Ladeiras de Olinda - Eu Acho é Pouco De segurança de Lála K, cidade Olinda, quero cantar, mãos ao alto, orquestra e batucada ao fundo, dragão vermelho e amarelo na frente. Desce ladeira, passa o passódromo, pausa, sobe a ladeira para o maior momento de anulação da curta trajetória - subir a ladeira com o bloco é experimentar o coletivo, não há possibilidade de vontade nem cansaço; empurrado é o corpo ao som da música e de quem vem atrás, eu acho é pouco, é bom demais, eu quero é mais frevar, o povo fantasiado nas ruas, acaba o percurso e nova concentração, chupa dudu, mais orquestra, mais batuque, mais alegria.
terça - 28.fev parte II: Rec Beat - Turbo Trio e Nação Zumbi Turbo Trio fez um show curto por causa do tempo do palco, todo atrasado, e o avião de volta saindo em plena madrugada. Potência turbinada com projeções, músicas cantadas pelo público, e por pouco não estoura a panela de 30 mil, esperando para destampar no show seguinte. Nação Zumbi de graça, em casa, encerramento do festival. Histórico. Gente assistindo até do estacionamento no prédio ao lado, zumbis fantasiados, ontem amanhã e depois eram agora naquele palco. Músicas novas e antigas com novas batidas, a massa pulava, a banda não parava. O fim chegou depois das quatro, sorrisos no rosto escorridos de maquiagem, alma levada pelo delírio coletivo em hellcife, céu é às vezes o inferno na terra. Pra renascer e festejar nas cinzas da 4afeira.
* e na 4afeira:Gaibú, aniversário, pique-pique antes de pegar o avião e voltar à Babilônia. Nos pés os sinais dos blocos. No corpo nenhum cansaço. Sorrisos e suspiros no coração, ecos de um carnaval desde já inesquecível.
Escrito por Renata CS às 12h08
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